Pessoas diagnosticadas com hipotireoidismo têm maiores chances de apresentar quadros de apneia obstrutiva do sono (AOS) e de forma mais severa. Esta é a principal constatação de um estudo conduzido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e financiado pela FAPESP, publicado na revista Sleep. O trabalho analisou dados de 761 paulistanos, reforçando uma relação mútua entre as duas condições, ao mesmo tempo em que revelou benefícios do tratamento hormonal para a qualidade do sono.

Relação bidirecional entre hipotireoidismo e apneia do sono

Segundo a pesquisa, 12,6% dos participantes apresentavam hipotireoidismo e, desse grupo, quase metade (49,5%) também tinha apneia do sono. Este número supera médias relatadas na literatura científica, que apontam taxas entre 30% e 40%. "Ficou acima do esperado. Encontramos praticamente metade dos participantes com as duas doenças", destaca Ellen Maria Sampaio Xerfan, pós-doutoranda e autora principal do estudo.

O diagnóstico do hipotireoidismo foi feito a partir de exames laboratoriais e polissonografia, exame considerado padrão-ouro para análise dos ciclos e qualidade do sono. Para os pesquisadores, a associação entre as duas enfermidades é marcada por uma relação bidirecional: alterações hormonais influenciam o sono e, por sua vez, distúrbios do sono afetam a regulação hormonal da tireoide.

Sintomas, prevalência e recomendações clínicas

O hipotireoidismo ocorre quando a glândula tireoide passa a produzir níveis insuficientes de hormônios, afetando metabolismo, temperatura corporal e outros processos essenciais. Dentre os sintomas, a sonolência, cansaço, ganho de peso e dificuldades de concentração são frequentes.

O levantamento revela uma elevação na prevalência geral da apneia do sono, subindo de 32,9% em 2010 para 37,1% em 2018, de acordo com o Estudo Epidemiológico do Sono de São Paulo (EPISONO). A AOS dificulta a manutenção de um sono contínuo, levando a quedas nos níveis de oxigênio, fragmentação do sono e, consequentemente, a riscos cardiovasculares e metabólicos.

Monica Levy Andersen, professora da Unifesp e orientadora da pesquisa, ressalta a necessidade de ampliar a investigação do sono durante atendimentos médicos: "Muitas vezes sintomas como cansaço ou alterações metabólicas não são relacionados a distúrbios do sono, perdendo-se um possível diagnóstico integrado.”

Impacto positivo do tratamento hormonal

O estudo também avaliou os efeitos do tratamento de reposição hormonal (levotiroxina) em pacientes com hipotireoidismo. Aqueles sob tratamento dormiam, em média, 49 minutos a mais por noite e permaneciam 22 minutos adicionais na fase de sono profundo (N3), que é importante para a reparação do organismo e consolidação da memória.

Segundo Xerfan, o cuidado adequado pode não só controlar o hipotireoidismo, mas também contribuir para uma melhor qualidade do sono e reduzir riscos à saúde. Contudo, o tratamento de uma condição não elimina a necessidade de tratar a outra — ambas podem somar riscos, principalmente para o sistema cardiovascular.

Próximos passos e recomendações

As pesquisadoras indicam que o acompanhamento médico de pacientes com apneia do sono deve incluir avaliação da função tireoidiana, e vice-versa. O diagnóstico e o tratamento precoces de ambas têm potencial para melhorar a qualidade de vida e prevenir complicações.

Novos estudos previstos buscarão entender melhor os mecanismos dessa interação e possíveis benefícios de abordagens integradas. O artigo completo pode ser conferido no site da revista Sleep.

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