A crescente desconfiança dos brasileiros em relação às urnas eletrônicas foi discutida na noite de segunda-feira (10) no programa Roda Viva, da TV Cultura, com a participação de Cila Schulman, CEO do IDEIA Instituto de Pesquisa. A especialista analisou como a percepção de fraude eleitoral se tornou um obstáculo à confiança no sistema democrático brasileiro nos últimos anos.

Origem do ceticismo e influência política

Durante o programa, Schulman ressaltou que o questionamento sobre a segurança das urnas eletrônicas ganhou força a partir de 2014, mesmo sem qualquer prova de fraude apresentada até hoje. “Isso foi plantado em 2014 sem nenhuma evidência. Apesar de não termos tido um único caso documentado de fraude, a ideia passou a circular fortemente entre a população”, explicou a pesquisadora.

Ela também comentou que, em pesquisas recentes do IDEIA, é significativo o número de brasileiros que não acreditam totalmente na integridade das urnas. Segundo Schulman, embora ainda haja mais pessoas convencidas da lisura do processo, uma fração relevante expressa dúvidas – seja de forma contundente ou parcial.

Perfil dos desconfiados e contexto eleitoral

Cila Schulman destacou que a maioria dos cidadãos que desconfiam do sistema eletrônico de votação são, historicamente, eleitores ligados a figuras como Flávio Bolsonaro. Esse grupo, segundo ela, costuma ser mais receptivo às narrativas de desconfiança promovidas por setores políticos específicos.

No decorrer do debate, a CEO do IDEIA também trouxe à tona dados da Organização dos Estados Americanos (OEA), indicando que, para se fraudar o sistema eleitoral brasileiro de maneira significativa, seria necessário manipular pelo menos cinco mil urnas. “Em cada uma dessas urnas, seria preciso garantir 100% dos votos para um único candidato, o que resultaria em uma manipulação de apenas 1% na intenção de voto nacional”, afirmou Schulman, ressaltando a robustez e a complexidade do sistema brasileiro.

Importância das redes sociais e o papel da imprensa

O programa também abordou como as redes sociais têm potencializado o engajamento – e a polarização – em torno do processo eleitoral. Segundo Schulman, plataformas digitais funcionam tanto para informar como para espalhar dúvidas e fake news sobre o sistema de votação, influenciando diretamente a opinião pública.

A bancada de entrevistadores do Roda Viva foi composta por jornalistas de veículos como TV Cultura, Rádio CBN, Estadão, UOL, Folha de S.Paulo, além do professor Pablo Ortellado, da USP. A condução do programa foi de Ernesto Paglia.

Desafios para as eleições futuras

Para Cila Schulman, um dos grandes desafios das próximas eleições será reconstruir a confiança na Justiça Eleitoral e nos procedimentos eletrônicos. Ela reforça que o debate amplo, com informações transparentes e embasadas, é fundamental para diminuir o ceticismo e fortalecer a democracia.

A especialista lembra que questionamentos sem embasamento enfraquecem a credibilidade das instituições e podem gerar instabilidade política. O programa completo segue disponível no canal oficial da TV Cultura no YouTube e no portal da emissora para quem deseja acompanhar o debate na íntegra.

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