O ativismo contra a Aids no Brasil, que foi um modelo de sucesso mundial, enfrenta desafios significativos, conforme revela um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV). Desde a criação do primeiro programa de tratamento gratuito em 1987, o país se destacou pelo ativismo social que promoveu importantes políticas de saúde pública. Contudo, a pesquisa aponta que esse protagonismo tem diminuído nos últimos anos, levando a uma despolitização do movimento.

A Fragmentação do Ativismo

Historicamente, o Brasil foi pioneiro em garantir acesso universal a tratamentos antirretrovirais e em promover políticas públicas pautadas por direitos humanos. No entanto, a nova configuração social das pessoas que vivem com HIV, predominantemente de baixa renda, e mudanças nas prioridades das políticas de saúde têm contribuído para a fragmentação do ativismo. Helena Achcar, pesquisadora da FGV, afirma que o ativismo atual não pode ser reduzido a questões financeiras, mas reflete uma mudança nas prioridades devido à pauperização da epidemia.

A pesquisa foi publicada na revista Sociology of Health & Illness e destaca que a percepção de que a Aids está sob controle é enganosa. “A despolitização do ativismo se relaciona com o avanço tecnológico e a medicalização da resposta ao HIV, que favorece soluções rápidas em detrimento de uma abordagem que enfrente as desigualdades sociais”, explica Achcar.

Impactos da Medicalização e Neoliberalismo

Desde os anos 2010, a medicalização das políticas de Aids tornou-se predominante, reduzindo a doença a uma questão exclusivamente biomédica. Essa abordagem minimiza as desigualdades estruturais que o movimento historicamente buscou combater. Achcar destaca que ONGs, antes fortemente politicizadas, passaram a se profissionalizar e atuar como prestadoras de serviços, o que resultou na perda de parte de seu capital militante.

O estudo também aponta que, com a diminuição do apoio internacional e a pressão por cortes orçamentários, o espaço para participação social se restringiu ainda mais. Ativistas têm descrito a atual situação do movimento como um retrocesso, com tensões entre organizações tradicionais e novas redes que surgiram, levando a uma fragmentação ainda maior.

O Caminho a Seguir

O futuro do ativismo contra a Aids no Brasil depende da capacidade de reconstruir alianças e reverter a despolitização do movimento. É essencial que as questões de justiça social e igualdade sejam reestabelecidas como centrais na luta contra a epidemia. Achcar conclui que o ativismo deve recuperar seu caráter político, enfrentando as desigualdades que ainda alimentam a epidemia e garantindo que as vozes das populações mais vulneráveis sejam ouvidas e respeitadas.

A análise completa do estudo pode ser acessada em Wiley Online Library.

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