Os registros de bullying e cyberbullying entre crianças e adolescentes dispararam no Brasil em 2025. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, foram contabilizados 5.226 casos desses crimes ao longo do ano, representando um aumento superior a 65% em comparação a 2024. Foram 4.549 ocorrências de bullying e 677 de cyberbullying, frente a 2.736 e 452, respectivamente, do ano anterior.

Mudança na lei impulsiona registros

A explosão nos números coincide com a entrada em vigor da Lei 14.811/2024, que incluiu a “intimidação sistemática” (bullying) e o “cyberbullying” como crimes no Código Penal. Especialistas alertam, no entanto, que parte relevante desse aumento se deve justamente à formalização das denúncias e à maior conscientização de famílias e escolas em relatar tais casos. Benjamim Horta, fundador do Programa Escola Sem Bullying, observa que “a análise precisa considerar que a lei estimulou a sociedade a notificar situações de violência, ampliando o conhecimento sobre o tema”.

As raízes do problema e suas características

Apesar da concentração dos casos em ambientes escolares, os crimes podem ocorrer também em espaços virtuais e familiares. O bullying é caracterizado por agressões físicas, verbais, psicológicas ou sociais contínuas, com o objetivo de humilhar e excluir a vítima em uma relação desigual de poder. Já o cyberbullying transfere esse contexto para plataformas digitais, potencializando o alcance e a dificuldade do combate, já que o conteúdo ofensivo circula sem restrições de tempo ou espaço.

Crianças e adolescentes são os principais alvos nessas situações. Conforme o Anuário, 48% das vítimas tinham de 10 a 13 anos. Segundo Glicia Brazil, psicóloga e vice-presidente da Comissão da Infância e Juventude do Instituto Brasileiro de Direito das Famílias e Sucessões, nesta faixa etária, a imaturidade e o desejo de reconhecimento aumentam a vulnerabilidade à exposição e às provocações.

Papel das escolas e estratégias de prevenção

Especialistas apontam que a prevenção é o caminho mais eficaz para enfrentar o bullying. A formação contínua de professores e funcionários, canais de denúncia seguros e protocolos claros de apuração são fundamentais. Ana Paula Siqueira Lazzareschi de Mesquita, presidente da SOS Bullying, defende estruturas antibullying documentadas e auditáveis, além de planos individuais de proteção para vítimas e acompanhamento psicológico para todas as partes envolvidas.

O suporte à família também é decisivo. Mudanças bruscas de comportamento, tristeza, evasão das aulas e queda no rendimento escolar demandam atenção. No caso do cyberbullying, educação digital é fundamental para orientar sobre os riscos das redes sociais e alertar sobre as consequências legais de agressões virtuais.

Políticas públicas e a necessidade de uma abordagem integrada

Para especialistas, enfrentar a violência entre crianças e adolescentes exige políticas públicas permanentes, que integrem educação, saúde, assistência social e segurança. Ampliar o acesso a psicólogos nas escolas, fortalecer redes de apoio e avaliar periodicamente o impacto de programas de prevenção são medidas urgentes. Como aponta Benjamim Horta, apenas a punição não basta: “Precisamos equilibrar punição e restauração para promover mudança real na convivência escolar”.

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